Pobre velho mundo

October 23, 2007

            Como humanista e crente na evolução comportamental da espécie, é de se questionar como países ditos tão “educados” conseguem ser tão retrógrados quando está em questão a defesa de sua gente. Parece que estudar o outro, por meio de livros, os faz grandes antropólogos, sociólogos e filósofos, mas a distância dele preserva sua couraça de nobre intelectualidade.             

            A Europa mostra que não é a educação que fará um indivíduo virtuoso, mas a forma de sua realização que levará a compreensão de que só existe o EU e o Mesmo, a idéia do Outro como o diferente, como meu inimigo é a mácula histórica que o velho mundo vergonhosamente está deixando de apagar.

            Assim é que no último domingo, 21/10/07, as eleições suíças revelaram a intolerância e o preconceito de parcela de sua população com a conquista de quase 30% das cadeiras do congresso pelo SVP (Schweizerische Volkspartei – Union Démocratique du Centre), isso graças a uma propaganda xenófoba.

Propaganda su�ça

conquistar a segurança – slogan do cartaz

            A história não para por aí, o NDP da Alemanha (sigla que esconde ideólogos neonazistas), plagiou a propaganda suíça para sua disputa eleitoral no estado de Hessen. Daí me ocorre outro questionamento, se a democracia é o governo do livre pensamento, da pluralidade ideológica, ela pode permitir inclusive um partido de cunho nazista com o respaldo legal? Tudo é possível, inclusive um partido que não respeita o princípio democrático? Difícil decisão.

propaganda alemã

o social só para nacional! – slogan do cartaz


De que lado você está?

October 20, 2007

McTropa de elite osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você…           

   As coisas não são exatas ou estáticas como muitas vezes nos ensinam, elas são visões pessoais ou coletivas. Por isso aqui segue apenas mais um ponto-de-vista dos muitos possíveis a respeito do filme Tropa de Elite, uma visão maniqueísta entre o paladino e o fora-da-lei.           

   Separar a realidade em dois lados antagônicos já é uma indução para que você se posicione. É quase inevitável a pergunta inconsciente “De que lado você está?” e normalmente a resposta vem implícita, quem a faz quer cooptá-lo para seu grupo. Só lembrando, o homem é um ser político, ele vive de uma disputa de poder.           

   O filme é simplista demais em alguns aspectos, as personagens são previsíveis e tipificadas, o Capitão Nascimento é honesto, corajoso, líder, inteligente (parece saber a palavra estratégia em várias línguas), pai de família; Baiano, o traficante, é fora-da-lei, selvagem, inconseqüente (matou um policial do Bope “sem querer”), não tem laços familiares, nem raízes. São caracteres opostos, o único fator que os une é a violência, com a diferença de que um deles tem nossa permissão, não por ser policial, mas porque defende a gente (quem será essa gente?) e o outro é o estranho, o que vive em outra sociedade, paralela, distante dos nossos costumes, da nossa civilidade.           

   Isso, no entanto, não serve para alvejar o cineasta com críticas, o filme é muito bom na medida em que expõe a corrupção policial e os reais financiadores do tráfico. O problema é a recepção do filme pelas pessoas, ele passa por nosso ponto-de-vista, pelo ponto-de-vista de nosso grupo social e volta repleto de clichês. É difícil analisar, pensar na construção das cenas, no narrador em off, nos cortes, na trilha sonora, no figurino. A maioria prefere se prender à rotulação, à tipificação barata e isso pode ser muito perigoso quando se torna moda.           

   A sociedade de consumo de massas, nascida no século XX, é feita por meio de apelos aos nossos desejos, à satisfação do nosso EU, daí o bombardeio das marcas e códigos, que nos completam e nos identificam, para podermos ser diferentes dos outros.           

   Basta notar como somos seduzidos por símbolos, etiquetas que temos orgulho em carregar. Mas como se constrói uma marca? É simples, ou melhor, simplista: uma ideologia, um ícone, um hino; os exemplos são inúmeros: Fast food “feliz” importado dos USA, Mc, “Amo muito tudo isso”; “viva o lado Coca-Cola da Vida”, coca, “Coca-Cola é isso aí”. Sem se dar conta, depois de ver, ouvir e sentir milhares de vezes, você já está dominado por esses rótulos. Qualquer sugestão dessas marcas já pode levá-lo ao consumo.           

   O grande problema de Tropa de Elite é seu papel potencial como marca, já que representa uma ideologia, possui um logo-tipo e uma trilha sonora. Crianças e adolescentes já aderiram à moda, corre na internet vídeos de crianças brincando, não de polícia e ladrão, mas de Bope e traficante, com direito à tortura por asfixiamento, sufocando a vítima com um saco plástico na cabeça; os adolescentes cantam a música do filme, usam-na como ring-tones e tratam-se por apelidos referentes às personagens. Os adultos, como é o caso de Luciano Huck, apresentador de TV, clamam pelo Bope nas ruas para salvá-los, ou melhor, salvar a gente.           

   A manipulação ideológica por meio da construção simbólica é muito perigosa, como é simplista e de apelo sensorial, captura as mentes facilmente e se reproduz feito vírus, separa a sociedade em guetos, “nós que usamos está marca e os outros”, tornando-se a porta de entrada para o preconceito e para a intolerância.


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