comentário do amigo argentino

March 22, 2006

Meu grande amigo de Mendoza, um grande entendedor de escarros, contribuiu tao brilhantemente com seu texto que tive de postá-lo aqui para novas discussoes. Vejam caros ouvintes: 

 

Na sua aguda análise das excreções humanas, terráqueas, radio experimental penetra no obscuro vazio que nos possui. Submerge-se na nauseabunda desolação do ser e seu dejecto físico, sua prisão estuperfata e obscena da nossa impotência perante o absurdo do mundo.

Interessante seja talvez observar o foco colocado no fato da voluntariedade do escarro. Talvez, o único fluído que o homem consegue controlar.

Só a modo de curiosidade e extraído do Processo civilizador, de Norbert Elias, cito a Erasmo de Rotherdam, que no século XVI, na sua “De civilitate morum puerilium” aconselhava:
“Vire-se quando escarrar, para que o escarro não caia sobre alguém. Se alguma coisa purulenta cai no chão, deve ser pisada para que não provoque repugnância em alguém. Se não tens condição de fazer isso, pegue o esputo em um pequeno pedaço de pano. É indelicado engolir a saliva, como também aqueles que vemos escarrando a cada três palavras, não por necessidade, mas por hábito”.

Como também Della Casa, em Galeteo (1609): “O Homem deve abster-se tanto quanto possível de escarrar e, se não puder evita-lo inteiramente, isto deve ser feito educadamente e sem chamar a atenção. Ouço frequentemente dizer que povos inteiros viveram com tanta moderação e se conduziram com tanto decoro que escarrar tornou-se inteiramente desnecessário para eles. Por que, então, não podemos evitar isso apenas por um curto tempo?” (Nas refeições).

Pois é amigo, parece que essa vil criatura, o homem, demorou séculos (e gastou centenas de páginas dm tratados de bons costumes) para alcançar uma das suas patéticas conquistas. A saber, a de aprender a controlar, minimamente que seja, ao menos um único dos seus tantos excrementos. Seria, acaso, ilícito entre as requebrajadas unhas e as marcas espessas e vermelhas na parede trazer as palavras de Augusto dos Anjos?

Não consegui não lembrar do grito desesperado dele nos seus Versos íntimos.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Juan Cruz Galigniana, um fervoroso admirador.

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Novo Podcast, novas e velhas entevistas

March 4, 2006

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