De que lado você está?

McTropa de elite osso duro de roer, pega um, pega geral, também vai pegar você…           

   As coisas não são exatas ou estáticas como muitas vezes nos ensinam, elas são visões pessoais ou coletivas. Por isso aqui segue apenas mais um ponto-de-vista dos muitos possíveis a respeito do filme Tropa de Elite, uma visão maniqueísta entre o paladino e o fora-da-lei.           

   Separar a realidade em dois lados antagônicos já é uma indução para que você se posicione. É quase inevitável a pergunta inconsciente “De que lado você está?” e normalmente a resposta vem implícita, quem a faz quer cooptá-lo para seu grupo. Só lembrando, o homem é um ser político, ele vive de uma disputa de poder.           

   O filme é simplista demais em alguns aspectos, as personagens são previsíveis e tipificadas, o Capitão Nascimento é honesto, corajoso, líder, inteligente (parece saber a palavra estratégia em várias línguas), pai de família; Baiano, o traficante, é fora-da-lei, selvagem, inconseqüente (matou um policial do Bope “sem querer”), não tem laços familiares, nem raízes. São caracteres opostos, o único fator que os une é a violência, com a diferença de que um deles tem nossa permissão, não por ser policial, mas porque defende a gente (quem será essa gente?) e o outro é o estranho, o que vive em outra sociedade, paralela, distante dos nossos costumes, da nossa civilidade.           

   Isso, no entanto, não serve para alvejar o cineasta com críticas, o filme é muito bom na medida em que expõe a corrupção policial e os reais financiadores do tráfico. O problema é a recepção do filme pelas pessoas, ele passa por nosso ponto-de-vista, pelo ponto-de-vista de nosso grupo social e volta repleto de clichês. É difícil analisar, pensar na construção das cenas, no narrador em off, nos cortes, na trilha sonora, no figurino. A maioria prefere se prender à rotulação, à tipificação barata e isso pode ser muito perigoso quando se torna moda.           

   A sociedade de consumo de massas, nascida no século XX, é feita por meio de apelos aos nossos desejos, à satisfação do nosso EU, daí o bombardeio das marcas e códigos, que nos completam e nos identificam, para podermos ser diferentes dos outros.           

   Basta notar como somos seduzidos por símbolos, etiquetas que temos orgulho em carregar. Mas como se constrói uma marca? É simples, ou melhor, simplista: uma ideologia, um ícone, um hino; os exemplos são inúmeros: Fast food “feliz” importado dos USA, Mc, “Amo muito tudo isso”; “viva o lado Coca-Cola da Vida”, coca, “Coca-Cola é isso aí”. Sem se dar conta, depois de ver, ouvir e sentir milhares de vezes, você já está dominado por esses rótulos. Qualquer sugestão dessas marcas já pode levá-lo ao consumo.           

   O grande problema de Tropa de Elite é seu papel potencial como marca, já que representa uma ideologia, possui um logo-tipo e uma trilha sonora. Crianças e adolescentes já aderiram à moda, corre na internet vídeos de crianças brincando, não de polícia e ladrão, mas de Bope e traficante, com direito à tortura por asfixiamento, sufocando a vítima com um saco plástico na cabeça; os adolescentes cantam a música do filme, usam-na como ring-tones e tratam-se por apelidos referentes às personagens. Os adultos, como é o caso de Luciano Huck, apresentador de TV, clamam pelo Bope nas ruas para salvá-los, ou melhor, salvar a gente.           

   A manipulação ideológica por meio da construção simbólica é muito perigosa, como é simplista e de apelo sensorial, captura as mentes facilmente e se reproduz feito vírus, separa a sociedade em guetos, “nós que usamos está marca e os outros”, tornando-se a porta de entrada para o preconceito e para a intolerância.

3 Responses to De que lado você está?

  1. daniel filho says:

    Bem professor, como você já sabe minhas opiniões muitas vezes coincidem com as suas, e quando raramente não o fazem, eu acabo mudando o meu ponto de vista e me tornando o mais novo “defensor das idéias ronianas”. Porém, há algo que preciso comentar sobre o filme Tropa De Elite. Li muito sobre ele e neste caso manterei minha posição. Entendido seu 02?
    Começando pelo tema, “A recepção do filme pelas pessoas”, é comum perguntar: O que faz com que alguém, após assistir o filme, saia pela rua cantando a música tema e repetindo falas dos “heróis” do BOPE na rua? Há para esta pergunta uma gritante resposta que está incrustada no peito de cada brasileiro: Segurança. Uma resposta muito simples, que se analisada com cuidado pode causar uma grande discussão.
    Antes de começar a polêmica, quero deixar claro que a segurança a que me refiro é aquela que buscamos para o nosso futuro. A segurança de vida, segurança que alguém, de maneira certa ou errada, ainda consegue nos fornecer.
    Não se engane e pense que a segurança a que me refiro é aquela que o policial oferece contra ladrões e assassinos. Com certeza muitos usuários de drogas aclamaram o BOPE, muitos assaltantezinhos e outros que tentam conseguir dinheiro através da força física, demonstraram interesse pelo filme.
    Estas pessoas com certeza não procuram pelo final do tráfico, não batalham pela paz mundial e nem reivindicam os seus direitos do consumidor. Mas eles encontram nesta produção brasileira, pessoas que ainda se mobilizam contra o sistema corrompido, no qual somos obrigados a viver. Isto nos oferece uma segurança para o futuro.
    O policial “PM” e o policial “caveira” são metáforas.
    O PM é mal preparado, não tem estrutura (social ou financeira) para ascender socialmente, não tem privilégios, é maltratado pelos superiores, ganha mal e da a vida para receber um salário que não paga o que o traficante ganha em um dia. Diante de tal situação é que ele começa a desviar-se do seu ideal e a corromper o sistema.
    Isso lhe lembra alguma classe social presente no Brasil? Talvez aquela que por ser prejudicada pela sua situação, acaba roubando para comer, ou alimentar sua família. Nesta mesma classe estão presentes os usuários de drogas e o assaltantezinho, que se identificam com o filme e se espelham no policial mais bem preparado, aquele que tem família, que tem filha, que mora em apartamento e que veste a farda preta. O assaltantezinho não quer ser assaltantezinho, ele não quer passar o resto de seus dias na cadeia, ele quer ter expectativa, ele quer ter caráter e ele quer construir tudo isso honestamente, tudo para sua própria segurança.
    O brasileiro que vê este filme se espelha no policial do BOPE. Ele quer dar a sua família uma boa casa, quer pagar seus impostos em dia, constituir uma reputação e acima de tudo dar expectativa para aqueles que ama, garantindo o futuro e as oportunidades para que estes sejam felizes, sem ter que “burlar o sistema”.(Atual função de uma pai de família).
    Assim surgem os heróis. Pessoas que na sociedade contemporânea, vivem num país como o Brasil onde a batalha é travada pela sobrevivência e a estagnação de impostos abusivos que fazem vazar as contas correntes da população quais são escoadas até os bolsos do senado.
    As poucas pessoas que vão contra o sistema, passam por cima dos corruptos e alcançam seus objetivos devem, hoje em dia, ser caracterizadas como heróis.

  2. Fernando says:

    Ronaldo.
    Já falamos bastante sobre o Tropa de Elite. Se por um lado ele é tecnicamente muito bom, já a história…
    1) Requentada.

    Quem assistiu “Noticias de uma guerra particular” de 1999 de João Moreira Salles e Katia Lund verá depoimentos de Paulo Lins (autor de Cidade de Deus) e Luis Soarea na época um policial do BOPE (hoje autor do livro que baseou o filme, chamado Elite da Tropa).

    2) Muito antiga

    Já que traz de volta o velho chavão de Maquiavel – Os fins justificam os meios. Para barrar a “bandidage” vale tudo. Vale mesmo?

    3) Fascista

    Ao apelar para o momento de extremo medo que impera na sociedade, justifica a violência pela incorruptibilidade do Capitão Nascimento.

    É impressionante a quantidade de meus alunos que viram e apoiam as atitudes do Capitão (capetão?). Será que se eles fizerem uma brincadeira a mais na sala poderei esbofeteá-los e manda-los “pedir para sair” ou mesm o chama-los, como faz o heroi, de moleques (MO-LE-QUES)?

    Grande abraço

  3. Peterson says:

    Gostei do termo utilizado pelo teu aluno Daniel Filho, “ideías Ronianas”, bom isto esta com cheiro de novos conceitos emergindo… Bom sobre o seu texto concordo contigo principalmente na questão do senso comum, como ficamos “escravizados” nos slongas que nos cercam, tudo virá moda e como a “moda” dita e rege as pessoas, a sociedade do consumo é que aclama as mudanças seguidas das ideías do consumo. Paro para refletir na sociedade que estamos ajudando construir e os quais os caminhos… Quando assisti o filme Tropa de Elite, no fim da sessão saí com um gosto amargo na boca (não era pipoca…rs), não desceu tão bem assim… Depois de uma semana estava explicado aquela sensação, minha turminha de 04 anos cantando “tropa de elite osso duro de doer, pega um…” e as brincadeiras novas que surgiam “sequestrador”…
    Grande abraço irmão

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