Jornal para analfabetos

June 7, 2006

            Como estamos em um país em que o maior veículo informativo é a TV, não há muito o que se esperar, não é mesmo? Àqueles dementes que não se contentam com as péssimas colagens jornalísticas de conteúdo surreal como a descoberta da linguagem dos golfinhos e a família que é quadrúpede e mesmo assim venceu na vida, só resta o jornal impresso – os periódicos semanais (revistas) são sofríveis por definição, já que são o resumo – o que se restringe à Folha de S. Paulo e ao Estado de S. Paulo (dizem Estadão pra ficar popular, mano!).

            Há  muito tempo – dizem os antigos –  esses diários eram dignos de comparação com o El Pais, o Le Monde e mesmo com o The Times, cheguei até ler belíssimos suplementos do Caderno Mais dos idos de 1997, em que Marilena Chauí, Renato Janine Ribeiro, Antonio Cândido e Alfredo Bosi eram figuras sempre presentes; mas faz tempo, talvez  eles não sejam mais interessantes aos modernos leitores, ou talvez porque já partiram desta pra melhor, ao menos intelectualmente, vai saber… A questão é que ultimamente essas mídias vêm passando por muitas reformas gráficas que de tantas plásticas, criaram um Frankenstein, O Estadão, por exemplo, alterou suas fontes sisudas, todas quadradas por outras mais claras e leves, ganhou cores e muitas fotos coloridas, ficou bonito até, estava agora com a cara da Folha, que era “descolada” faz tempo, mas, talvez por essa semelhança, a Folha resolve entrar na faca de novo, um puxa ali, estica aqui.

            Fosse só isso estaria bom, mas era preciso ser moderno, afinal eles acham que disputam com as páginas eletrônicas, daí o novo conceito:  versatilidade, um texto que pode ser lido em 5 ou em 50 minutos. Culpa dos leitores modernos que não podem perder muito tempo com essas coisas; resultado: além de a capa ser uma palheta de cores, agora há fotos gigantescas, panorâmicas até, uma beleza. Texto, para quê?

            Aí, me lembro de um episódio que ocorreu comigo em terras teutônicas. Como sempre fui leitor apaixonado por jornais, sempre que vou a outras terras tenho que comprar vários deles para me situar, foi aí que me deparei com o Frankfurter Allgemeine, um diário muito lido na Alemanha e que não trazia uma foto sequer em sua capa. Como bom brasileiro, acostumado com o primor dos produtos nacionais, perguntei ao meu amigo Matthias Que estranho, um jornal sem fotos, como pode? E eis que ele me responde Mas pra que foto? Neste momento meu amigo me chamava de analfabeto.

            Para que ler se pode ver? Chega! Viva a Copa do mundo! Viva a seleção! Viva!

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Genocídio no Timor Leste

June 2, 2006

menino timorenseAlguns filmes que vemos vêm para mudar nossa visão de mundo, pelo menos foi isso que aconteceu comigo quando assisti ao melhor filme de 2005, refiro-me ao Hotel Ruanda. Quem ainda não teve a oportunidade de vê-lo, deve correr deseperadamente à locadora,  agarrar o filme e se preparar emocionalmente para a porrada que vai levar. Isso porque o enredo é sobre a guerra civil de Ruanda após a retirada do governo Belga, deixando um país retalhado para sangrentas disputas étnicas. Para quem sabe do que estou falando, é impossível continuar vivendo impassível com atos sanguinários acontecendo no planeta e nós aqui, no recanto, nos esconderijos de nossos lares girando o copo de whiskey escutando o tilintar dos gelos. Para piorar tudo isso não há um pingo de informação nos “melhores jornais do país” sobre esse genocídio. Ao menos foi isso que senti quando vi o filme, essa imensa ignorância em relação ao mundo, especialmente quanto a esse mundo “não civilizado” que nossos professores nos passaram, como África – que é só um imenso continente – ou você consegue citar meia dúzia de países e suas respectivas capitais? e como o Oriente muçulmano. Por exemplo, você já ouviu falar em Timor Leste, pois é, uma das ilhotas do arquipélago da Indonésia, por sinal esse país, depois de colonização portuguesa, foi dominado pelas mãos de ferro do general Suharto, lembra-se?

            A questão é que, com o fim de guerra fria, os povos se viram sem seus cabrestos ideológicos e acordaram de um dia para o outro pobres e vivendo com um povo estranho, isso porque os recortes que as potências européias imprimiram nessas colônias incluiam diversos grupos etnicolingüísticos sob uma falsa bandeira nacional.

            Nesta semana vi fotos horrendas de Dili, capital do Timor Leste, nos jornais, elas traziam homens com os rostos enrolados a trapos, levando às mãos facões ou pedaços de paus, realidade que só me chegara antes com o filme Hotel Ruanda.

            Como fui omisso em relação ao episódio ruandense, não posso perder essa chance de me manifestar sobre o massacre que ocorre neste momento. Ainda mais que nossa chance de ajudá-los é muito mais significativa já que é uma nação lusófona, ao menos parcela dessa população. Mesmo assim nosso país pouco fez sobre o fato e os irmãos portugueses já enviaram algumas tropas, de paz, é claro, na tentativa de reinstituir o governo democrático, mas será esse o caminho?

            O país, para se ter uma idéia, possui 700 mil habitantes e entre 15 e 30 grupos etnicolingüísticos, situação inimaginável para nós, o máximo que entendemos sobre isso é das lições de geografia quando estudamos a estranha Suiça e seus quatro grupos lingüísticos. Isso porque o nosso sistema, a democracia ocidental, não se encaixa a essa realidade, é impossível colocar num mesmo saco de gatos tantas diferenças, tantos povos. A democracia não é a única nem muito menos a melhor solução. Quando é que os terráqueos vão acordar para isso.


Campanha para salvar a arte

May 31, 2006

Em momentos de indignação é muito difícil escrever, somos dominados por tamanha emoção que as idéias simplesmente não vêm, ou vêm em turbilhão; agora, no entanto, já consigo atinar melhor sobre o episódio do MASP, o museu de arte de São Paulo.
O corte recente de energia elétrica do museu é, por si só, um crime, já que o espaço abriga obras raríssimas, belíssimas e de grande importância histórica, que dependem de cuidados especiais, como o controle da temperatura, da umidade, sem falar nos sistemas de segurança, controlados eletronicamente. Tal colapso que ocorreu pode, portanto, levar à destruição de parte do patrimônio cultural/educacional do país.
Isso tudo que poderia parecer um absurdo faz parte de um projeto, isso mesmo, um projeto político de destruição da educação nacional, está tudo certo, o caso do MASP é só uma demonstração de como os governos encaram a formação de seu povo. Existe, de fato, a vontade desse grupo dirigente – e daqueles que votaram neles – de solapar com qualquer reflexão que o indivíduo possa ter – elementos que constituem a história são peças de um quebra-cabeça que o poder público se esforça por desfazer. Duvidam? Só para colocar as coisas às claras, Julio Neves, o déspota que dirige o museu há anos, é amigo de infância de Maluf. Preciso dizer mais alguma coisa?
Poucos sabem disso? Por quê? E o pior, poucos sabem como funciona um museu/centro cultural de verdade. Para quem tem curiosidade, dê uma olhada no site do Centre Pompidou de Paris http://www.cnac-gp.fr, lá a história e a cultura não servem para ser apenas contempladas, mas sim para estimular novas reflexões, para que novos artistas dialoguem com a tradição, para que o cidadão freqüente o espaço a cada nova curadoria. Aqui no Brasil só se vai ao museu uma vez na vida, mesmo porque não há nada de novo, é coisa do passado e que não tem mais serventia. Veja só que diferença.
Então, amigos da arte, temos que nos unir para um fim nobre, o país não pode continuar com essas obras de Van Gogh, Degas, Renoir, é um crime à humanidade e, como os brasileiros não se interessam por essas “velharias”, vamos fazer uma campanha para que essas peças sejam cuidadas pelos franceses, ou pelos argentinos, não sei… mas esse tesouro deve estar em melhores mãos.


Muito cuidado ao andar pelas ruas, porque a elite está solta e ela é muito perigosa – sobre os ataques ao PCC em São Paulo.

May 19, 2006

Nada como morar no Brasil e poder sair do local agradável, inercial até certo ponto, em direção ao caos, o qual é, na verdade, a origem de tudo, a massa energética instável capaz de um movimento; ainda bem que esse país nos proporciona essa chance de podermos sair do lugar e, quem sabe, até de podermos pensar, embora isso seja para poucos, bem poucos mesmo.
Nessa guerra civil estruturada como uma Blitzkrieg, um fato inusitado surgiu: bancos foram atacados, ônibus foram queimados, mas praticamente nada foi roubado; então como explicar o confronto armado? Os bandidos tomaram conta do país? Essas e outras respostas para essas perguntas clichês são muito fáceis de se responder, se você sair, um pouco que seja, do lugar comum. Por exemplo, é óbvio que são os bandidos que governam, a questão é que eles não estão em presídios, como se deveria esperar, estão, às avessas, nos melhores pontos da pirâmide social, uma vez que a trapaça e o roubo é prática legitimada desde o planalto nacional (vide mensalão do PT e privatizações do PSDB), o que legitima todos os delitos menores, estes usados como troféus para a classe mediana que se contenta em ver o batedor de carteiras atrás das grades, ou mesmo o traficante, um perversor da família.
Os fatos reais mostram porém detalhes mais interessantes, como um líder do tráfico (Marcola) que reivindica alguns direitos mínimos, como banho quente e televisão, ou você acha que isso é um luxo? Mais do que isso é, no entanto, pensar que esse bonvivant tem como passatempo ler as páginas de Dante Alighieri, daí a sofisticação desse beleletrista que poderia estar lecionando Literatura em algum colégio particular de São Paulo, mas que percebeu a tempo que o país dispensa essa classe de profissionais, já que educar é perigoso, é custoso; portanto o que resta a esse intelectual é procurar um emprego melhor, um negócio que lhe garanta condições para que ele continue cultivando seus hábitos eruditos, como comprar um livrinho de Saramago, um CD de Brahms ou mesmo um DVD de B.B King; luxo? Então nada como trabalhar com produtos de alto valor agregado que possam ser pagos por quem tem muito, algo como ser importador de vinhos Romanée Conti ou de algum outro alucinógino qualquer. Deixemos isso claro, drogas são muito caras e quem as consome é a elite, ela financia tudo isso, financia a pobreza, as milícias, as favelas. Esse pai de família que tinha todo o potencial do mundo para ser um literato caiu na real, viu que litterae non dat panem, que sua função é um luxo em um país que valoriza a televisão e outras banalidades, logo, teve de se tornar um comerciante de produtos raros e caros, porque ilegais.
Ele, no entanto, não está sozinho, existe mão-de-obra abundante que o país legalizado deixou à sua margem, simplemente porque alguns precisam ter mais do que outros, então um projeto consistente há séculos construiu esse país: milhares não têm direito a escolas decentes, a hospitais equipados, a moradias dignas e a transportes eficientes. Para eles só resta a resignação ou atravessar a fronteira invisível e viver de fato no mundo “ilegal”, lá eles podem sonhar com uma renda digna vinda das elites do país “legal”.
Fácil é fechar os olhos para isso e fingir que é coisa de outro mundo, o problema no entanto aflora quando as relações “diplomáticas” entre esses dois países ficam instáveis, quando se percebe que a fronteira é frágil.
Como então resolver essa questão? É coisa simples que Machado de Assis pode nos ajudar; como em O Alienista, o médico notara que os mentecaptos eram sãos e estavam erroneamente confinados, deveria ser feita uma troca, estes libertados e os verdadeiros mentecaptos capturados; assim deve ser feito, os presos, aqueles a quem não foram dadas oportunidades, devem ser soltos e os libertos "espertos", confinados, veríamos tantos políticos e socialites atrás das grades que daria gosto.


Quem somos nós?

April 16, 2006

Se existe esse espaço, ele é feito para coisas extraordinárias, nunca ordinárias; assim todos os possíveis assuntos são cuidadosamente escolhidos e, há pouco, um filme supreendente chegou às campinas do interior do planalto de quem.jpgPiratininga, é ele o Quem somos nós?, uma tradução reducionista de What the bleeb do we know? , melhor dizendo, Que #&%* sabemos nós?
Esse brilhante filme de William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente (documentário/narrativa) vasculha o funcionamento da realidade/imaginação, fazendo um percurso pelos conceitos da moderna Física quântica, do princípio da incerteza, à fabricação da realidade que o corpo pode fazer, dos neurotransmissores ao hipotálomo, glândula mestra do corpo dos humanos.
Existem de fato as coisas? O que não é possível ver também pode existir? Partículas ou ondas? São essas algumas dúvidas que esses gênios nos colocam ao olhar investigativo da personagem Amanda, ou seriam Amandas?
Simplesmente imperdível, é uma das raras oportunidades que são dadas aos humanos para que reflitam sobre sua insignificância, quem perder essa chance pode talvez viver o resto de sua vida no limpo da ignorância. Mas é para poucos, portanto corra porque é um filme perigosíssimo, faz pensar e logo sairá de circulação, é possível até que suas cópias se auto-destruam em frações de segundos para não gerar pânico no planeta.


o mundo que vejo e o mundo que os outros vêem

April 3, 2006

Estava por acaso fazendo algumas escavacoes no planeta quando encontro algo precioso. É Gerald Thomas que em seu blog www.geraldthomas.blog.uol.com.br  conta um pouco do mito da caverna em sua vida; será que uns nao querem ver a realidade? A rádio experimetal compartilha esse mesmo sentimento com Gerald. Divirta-se e depois dê uma passada em sua página, pensar é sempre bom, ajuda-nos e a lembrar que estamos vivos.

qualidade de vida

São Paulo – Perspectiva histórica é sempre um fracasso, uma coisa subjetiva de fazer arrepiar os cabelos ou de levar o ser humano ate o suicídio (em casos como os de Walter Benjamin ou Stephan Zweig). A gente parte do pressuposto de que estamos certos e de que o resto está errado. E queremos corrigir esse resto. Mas não dá, né? E aí? Como se faz? Luta armada, demonstração pública, passeatas, brigas de família, alcoolismo, drogas pesadas, desequilíbrio emocional, esquizofrenia, afastamento de tudo e de todos…

Acho que tem alguns grandes gênios da Historia que começaram a enxergar a verdade pura e simples, assim como Hegel a havia pesado em sua dialética, e simplesmente relevaram essa perspectiva histórica para um outro plano: temo que esses gênios tornaram-se cínicos.Outros combateram ate o fim, inseriram a sua “parte”, por assim dizer, mudaram páginas dos livros da história, rasgaram aquilo que achavam errado e substituíram tudo por uma “lavagem monumental”, como Sartre ou alguns outros.

Mas por que escrevo isso? É que vejo o mundo em colapso. Mas quando converso com pessoas em volta, elas não o vêem assim. Fico pasmo. Pergunto qual mundo elas vêem. Algumas me respondem que têm jardins enormes e que eu deveria me preocupar mais com a minha qualidade de vida, pensar menos no que Bush está aprontando pelo mundo, já que a política sempre foi política (eu nasci num berço político e, através dos meus pais, sempre acompanhei os movimentos do mundo, já que sempre fomos “refugiados nômades” de uma certa forma). Outros me falam que eu deveria me preocupar com o futuro e fazer aplicações em bens materiais, investir em um apartamento aqui em São Paulo (onde me encontro agora, ensaiando quatro novos espetáculos – freneticamente e num tremendo stress). Todos tem uma opinião. Eu ouço.

Mas poucos têm noção do mundo redondo. Poucos aqui nesta capital, que a Travel Section do New York Times chamou de “the New Sao Paulo”, sabem a origem real dos sunitas, ou como era dividido o império austro-húngaro ou que a Alemanha sequer era um único país antes de Bismark. Na verdade, talvez eles tenham razão. Para comprar uma pizza na esquina, não precisa saber quem era Bismark. Mas a vida fica tão mais recheada, tão mais gostosa, tão mais saborosa quando se tem a tal perspectiva histórica, quando se sabe que a vida não começou ontem, que aquela música oriunda de outra música, e que aquela roupa é influenciada por uma fashion vinda dos anos 50 de uma senhora chamada Diane Vreeland. Quem era ela? O que era a Vanity Fair naquela epoca?

Pois é! Trotsky morreu no México com uma machadada na cabeça. Picasso, depois de inúmeras tentativas, conseguiu resumir a Guerra Civil Espanhola numa única tela, Guernica. Mas quem não sabe nada disso, ainda, mesmo assim, olhará aquela vaca com aquela lâmpada e dirá: que horror, ou que lindo, ou simplesmente passará por perto sem dizer nada. “Picasso? O que é isso? A mais nova linha da Renault?”

Gerald Thomas


comentário do amigo argentino

March 22, 2006

Meu grande amigo de Mendoza, um grande entendedor de escarros, contribuiu tao brilhantemente com seu texto que tive de postá-lo aqui para novas discussoes. Vejam caros ouvintes: 

 

Na sua aguda análise das excreções humanas, terráqueas, radio experimental penetra no obscuro vazio que nos possui. Submerge-se na nauseabunda desolação do ser e seu dejecto físico, sua prisão estuperfata e obscena da nossa impotência perante o absurdo do mundo.

Interessante seja talvez observar o foco colocado no fato da voluntariedade do escarro. Talvez, o único fluído que o homem consegue controlar.

Só a modo de curiosidade e extraído do Processo civilizador, de Norbert Elias, cito a Erasmo de Rotherdam, que no século XVI, na sua “De civilitate morum puerilium” aconselhava:
“Vire-se quando escarrar, para que o escarro não caia sobre alguém. Se alguma coisa purulenta cai no chão, deve ser pisada para que não provoque repugnância em alguém. Se não tens condição de fazer isso, pegue o esputo em um pequeno pedaço de pano. É indelicado engolir a saliva, como também aqueles que vemos escarrando a cada três palavras, não por necessidade, mas por hábito”.

Como também Della Casa, em Galeteo (1609): “O Homem deve abster-se tanto quanto possível de escarrar e, se não puder evita-lo inteiramente, isto deve ser feito educadamente e sem chamar a atenção. Ouço frequentemente dizer que povos inteiros viveram com tanta moderação e se conduziram com tanto decoro que escarrar tornou-se inteiramente desnecessário para eles. Por que, então, não podemos evitar isso apenas por um curto tempo?” (Nas refeições).

Pois é amigo, parece que essa vil criatura, o homem, demorou séculos (e gastou centenas de páginas dm tratados de bons costumes) para alcançar uma das suas patéticas conquistas. A saber, a de aprender a controlar, minimamente que seja, ao menos um único dos seus tantos excrementos. Seria, acaso, ilícito entre as requebrajadas unhas e as marcas espessas e vermelhas na parede trazer as palavras de Augusto dos Anjos?

Não consegui não lembrar do grito desesperado dele nos seus Versos íntimos.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera –
Foi tua companheira inseparável!
Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.
Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.
Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

Juan Cruz Galigniana, um fervoroso admirador.